sábado, 29 de setembro de 2012

Aparição




"Tento, há quantos anos, vencer a dureza dos dias, das ideias solidificadas, a espessura dos hábitos, que me constrange e tranquiliza. Tento descobrir a face ultima das coisas e ler ai a minha verdade perfeita. Mas tudo esquece tão cedo, tudo é tão cedo inacessível. Nesta casa enorme e deserta, nesta noite ofegante, neste silêncio de estalactites, a lua sabe a minha voz primordial. Venho à varanda e debruço-me para a noite. Uma aragem quente banha-me a face, os cães ladram ao longe desde o escuro das quintas, fremem no ar os insectos nocturnos. Ah, o sol ilude e reconforta. Esta cadeira em que me sento, a mesa, o cinzeiro de vidro, eram objectos inertes, dominados, todos revelados às minhas mãos. Eis que os trespassa agora este fluido inicial e uma presença estremece na sua face de espectros...Mas dizer isto é tão absurdo ! sinto, sinto nas vísceras a aparição fantástica das coisas, das ideias, de mim, e uma palavra que o diga coalhar-me logo em pedra. Nada mais há na vida do que o sentir original, ai onde mal se instalam as palavras, como cinturões de ferro, onde não chega o comércio das ideias cunhadas que circulam, se guardam nas algibeiras. Eu te odeio, meu irmão das palavras que já sabes um vocábulo para este alarme de vísceras e dormes depois tranquilo e me apontas a cartilha onde tudo já vinha escrito... E eu te digo que nada estava ainda escrito, porque é novo e fugaz e invenção de cada hora o que nos vibra nos ossos e nos escorre de suor quando se ergue à nossa face."

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Somersault


Aqui está uma música que eu adoro dos Zero 7. Para quem não conhece, eles são uma banda britânica de Acid jazz e têm uma sonoridade que para mim é unica, característica e intimista. Sem pressas, eles chegam onde querem e a quem querem e da melhor forma.

Boa noite :)

António Lobo Antunes


"O nível médio daquilo que se publica, seja onde for, é muito baixo. Esta é a verdade em todo o mundo. As pessoas compram coisas que falam sobre o hoje e quando o hoje se tornar ontem já ninguém vai ler aquilo."

Mundo



quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Mosquito

“If you think you are too small to make a difference, try sleeping with a mosquito in the room.”

―Dalai Lama 

Marilyn Monroe


"I used to think as I look to the Hollywood night  - there must be thousands of girls sitting alone like me, dreaming of becaming a movie star. But I'm not going to worry about them. I'm dreaming the hardest."


Comunicação .

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Um clássico e uma das letras mais bonitas que já se fez, na minha opinião. Adoro este poema.Do ínicio ao fim! Sou só eu?  É lindo, e...eu preciso de acreditar na comunicação.  «É por isso que eu não fico satisfeito, em sentir o que sinto, se o que sinto fica só no meu peito

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Tás a ver o que eu estou a ver?
Tás a ver estás a perceber?
Tás a ouvir o que eu estou a dizer?
Tás a ouvir estás a perceber?
Eu tenho visto tanta coisa nesse meu caminho
Nessa nossa trilha que eu não ando sozinho
Tenho visto tanta coisa tanta cena
Mais impactante do que qualquer filme de cinema
E se milhares de filmes não traduzem nem reproduzem
A amplitude do que eu tenho visto
Não vou mentir pra mim mesmo acreditando
Que uma música é capaz de expressar tudo isso
Não vou mentir pra mim mesmo acreditando
Mas eu preciso acreditar na comunicação
Mas eu preciso acreditar na...
Não há melhor antídoto pra solidão
E é por isso que eu não fico satisfeito
Em sentir o que eu sinto
Se o que eu sinto fica só no meu peito
Por mais que eu seja egoísta
Aprendi a dividir as emoções e os seus efeitos
Sei que o mundo é um novelo uma só corrente
Posso vê-lo por seus belos elos transparentes
Mudam cores e valores mas tá tudo junto
Por mais que eu saiba eu ainda perguntoTás a ver a vida como ela é?
Tás a ver a vida como tem que ser?
Tás a ver a vida como a gente quer?
Tás a ver a vida pra gente viver?

Nossa vida é feita
De pequenos nadas

Tás a ver a linha do horizonte?
A levitar, a evitar que o céu se desmonte
Foi seguindo essa linha que notei que o mar
Na verdade é uma ponte
Atravessei e fui a outros litorais
E no começo eu reparei nas diferenças
Mas com o tempo eu percebi
E cada vez percebo mais
Como as vidas são iguais
Muito mais do que se pensa
Mudam as caras
Mas todas podem ter as mesmas expressões
Mudam as línguas mas todas têm
Suas palavras carinhosas e os seus calões
As orações e os deuses também variam
Mas o alívio que eles trazem vem do mesmo lugar
Mudam os olhos e tudo que eles olham
Mas quando molham todos olham com o mesmo olhar
Seja onde for uma lágrima de dor
Tem apenas um sabor e uma única aparência
A palavra saudade só existe em português
Mas nunca faltam nomes se o assunto é ausência
A solidão apavora mas a nova amizade encoraja
E é por isso que a gente viaja
Procurando um reencontro uma descoberta
Que compense a nossa mais recente despedida
Nosso peito muitas vezes aperta
Nossa rota é incerta
Mas o que não incerto na vida?

Tás a ver a vida como ela é?
Tás a ver a vida como tem que ser?
Tás a ver a vida como a gente quer?
Tás a ver a vida pra gente viver?

Nossa vida é feita
De pequenos nadas

A vida é feita de pequenos nadas
Que agente saboreia, mas não dá valor
Um pensamento, uma palavra, uma risada
Uma noite enluarada ou um sol a se pôr
Um bom dia, um boa tarde, um por favor
Simpatia é quase amor
Uma luz acendendo, uma barriga crescendo
Uma criança nascendo, obrigado senhor
Seja lá quem for o senhor
Seja lá quem for a senhora
A quem quiser me ouvir e a mim mesmo
Eu preciso dizer tudo o que eu estou dizendo agora
Preciso acreditar na comunicação
Não há melhor antídoto pra solidão
E é por isso que eu não fico satisfeito em sentir o que eu sinto
Se o que sinto fica só no meu peito
Por mais que eu seja egoísta
Aprendi a dividir minhas derrotas e minhas conquistas
Nada disso me pertence
É tudo temporário no tapete voador do calendário
Já que temos forças pra somar e dividir
Enquanto estivermos aqui
Se me ouvires cantando, canta comigo
Se me vires chorando, sorri

Tás a ver a vida como ela é?
Tás a ver a vida como tem que ser?
Tás a ver a vida como a gente quer?
Tás a ver a vida pra gente viver?

Nossa vida é feita
De pequenos nadas

Universo .

“A human being is a part of the whole called by us universe, a part limited in time and space. He experiences himself, his thoughts and feelings as something separated from the rest, a kind of optical delusion of his consciousness. This delusion is a kind of prison for us, restricting us to our personal desires and to affection for a few persons nearest to us. Our task must be to free ourselves from this prison by widening our circle of compassion to embrace all living creatures and the whole of nature in its beauty.”



―Albert Einstein

Random Stuff .












quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Cair no Céu .


(...) Lembro-me de há muitos anos estar deitado no chão, no campo (todos nós devíamos ter nascido e vivido no campo), com o céu por cima, azul, com vagarosas nuvens. De costas era a posição, e é a posição para quem quer sujeitar-se à experiência. É importante que haja silêncio. (Um leve fundo de cigarras, folhagens e piar de aves não perturba. Havia tudo isto no momento de que falo.) Eu estava deitado de costas e tinha o céu por cima. E bruscamente o céu tornou-se qualquer coisa onde se podia cair. Não era a força da gravidade que me mantinha colado à terra, mas a minha vontade. Com as mãos espalmadas no chão, enterrava os dedos na erva macia - enquanto o céu se tornava cada vez mais fundo e azul, e as nuvens mais vagarosas, até tudo se suspender num minuto de terror absoluto e de fascinação. Eu ia cair no céu infinitamente. Animal deste planeta, sem asas que me levassem sequer à nuvem mais baixa, sentei-me de rompante, rolei de bruços, de rosto contra a terra húmida. Só por isso é que não fui o primeiro cosmonauta da história.
Foi uma pequena emoção num mundo já então abundante de emoções. Ora, há dias aconteceu-me outra vez estar prestes a cair no céu.
Era também azul, e havia nuvens. Não faltavam as cigarras, nem os pássaros. O tempo passado anulou-se de súbito, o homem achou-se criança - e o céu renovou as suas tentações. Que foi que não fiz?, pergunto agora então. Que coisas me foram prometidas e negadas, ou dadas e perdidas? Que vem fazer aqui este belo demónio azul, esta vertigem esta tentação de renúncia, ou apenas a rápida consciência de uma dimensão poética que o mundo não aguenta, ou não aguento eu vivendo nele?
Deixei-me ficar a ver o céu. Bem sabia que não ia cair para cima. O tempo reconstituiu o que desfizera: achei-me quem sou e no mundo em que vivo. Vagamente inquieto, vagamente perplexo, primeiro, mas logo, enquanto enxugava uma gota de suor que me escorregava ao longo do pescoço, recobrei a lembrança da frase que me esquecera: «Não sei o que cá faço, e é importante que o saiba. Mas mais importante é fazer». E para o meu lado direito me voltei, como quem se reconhece e entrega.

JOSÉ SARAMAGO, "Cair no Céu", in Deste Mundo e do Outro (1971)

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Lembro-me de ler esta passagem nalgum livro da "escola" há uns bons anos. Fez-me sentido na altura. Hoje fui procurá-la e senti-a de novo. Fez-me sentido novamente. É importante que haja silêncio. «Não sei o que cá faço, e é importante que o saiba. Mas mais importante é fazer».


Maria

To build a home- The Cinematic Orchestra




"Andy Dufresne: That's the beauty of music. They can't get that from you... Haven't you ever felt that way about music?
Red: I played a mean harmonica as a younger man. Lost interest in it though. Didn't make much sense in here.
Andy Dufresne: Here's where it makes the most sense. You need it so you don't forget.
Red: Forget?
Andy Dufresne: Forget that... there are places in this world that aren't made out of stone. That there's something inside... that they can't get to, that they can't touch. That's yours."


From : The Shawshank Redemption 1994.

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Uma das minhas músicas favoritas , com um dos meus filmes favoritos. Fica aqui a letra da música  (:

Building something?

Maria
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Out in the garden where we planted the seeds
There is a tree as old as me
Branches were sewn by the color of green
Ground had arose and passed it's knees

By the cracks of the skin I climbed to the top
I climbed the tree to see the world
When the gusts came around to blow me down
I held on as tightly as you held onto me
I held on as tightly as you held onto me......


Cause, I built a home
for you
for me

Until it disappeared
from me
from you

And now, it's time to leave and turn to dust...