(...) Lembro-me de há muitos anos estar deitado no chão, no campo (todos nós devíamos ter nascido e vivido no campo), com o céu por cima, azul, com vagarosas nuvens. De costas era a posição, e é a posição para quem quer sujeitar-se à experiência. É importante que haja silêncio. (Um leve fundo de cigarras, folhagens e piar de aves não perturba. Havia tudo isto no momento de que falo.) Eu estava deitado de costas e tinha o céu por cima. E bruscamente o céu tornou-se qualquer coisa onde se podia cair. Não era a força da gravidade que me mantinha colado à terra, mas a minha vontade. Com as mãos espalmadas no chão, enterrava os dedos na erva macia - enquanto o céu se tornava cada vez mais fundo e azul, e as nuvens mais vagarosas, até tudo se suspender num minuto de terror absoluto e de fascinação. Eu ia cair no céu infinitamente. Animal deste planeta, sem asas que me levassem sequer à nuvem mais baixa, sentei-me de rompante, rolei de bruços, de rosto contra a terra húmida. Só por isso é que não fui o primeiro cosmonauta da história.
Foi uma pequena emoção num mundo já então abundante de emoções. Ora, há dias aconteceu-me outra vez estar prestes a cair no céu.
Era
também azul, e havia nuvens. Não faltavam as cigarras, nem os pássaros.
O tempo passado anulou-se de súbito, o homem achou-se criança - e o céu
renovou as suas tentações. Que foi que não fiz?, pergunto agora então.
Que coisas me foram prometidas e negadas, ou dadas e perdidas? Que vem
fazer aqui este belo demónio azul, esta vertigem esta tentação de
renúncia, ou apenas a rápida consciência de uma dimensão poética que o
mundo não aguenta, ou não aguento eu vivendo nele?
Deixei-me
ficar a ver o céu. Bem sabia que não ia cair para cima. O tempo
reconstituiu o que desfizera: achei-me quem sou e no mundo em que vivo.
Vagamente inquieto, vagamente perplexo, primeiro, mas logo, enquanto
enxugava uma gota de suor que me escorregava ao longo do pescoço,
recobrei a lembrança da frase que me esquecera: «Não sei o que cá faço, e
é importante que o saiba. Mas mais importante é fazer». E para o meu
lado direito me voltei, como quem se reconhece e entrega.
JOSÉ SARAMAGO, "Cair no Céu", in Deste Mundo e do Outro (1971)
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Lembro-me de ler esta passagem nalgum livro da "escola" há uns bons anos. Fez-me sentido na altura. Hoje fui procurá-la e senti-a de novo. Fez-me sentido novamente. É importante que haja silêncio. «Não sei o que cá faço, e é importante que o saiba. Mas mais importante é fazer».
Maria

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